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    Araken Vaz Galvão
    O Tupi Nosso de Cada Dia (II) Araken Vaz Galvão

    Na introdução destas notas falei da palavra Kaiuá, e falei também como na comunidade tupi o hábil domínio da palavra por um dos seus membros privilegia-o no sentido de se destacar entre seus pares.

                        


     Vimos, pois, que a eloqüência é uma virtude fundamental para o surgimento de um chefe. Entretanto, essa eloqüência não deve ser confundida com loquacidade, porque o respeito para com quem escuta exige uma articulação da palavra de forma concisa e correta, uma vez que não se deve abusar do dom do Kaiuá. Citei ainda, naquela ocasião, “[...] que fala e alma são a mesma coisa, daí a importância do seu domínio. A oratória é o objetivo supremo de quem deseja um posto eminente na consideração de seus concidadãos.”


     


    Agora veremos, entre outras curiosidades, o que é Kaiuá.


     


    Kaiuá é o dom da palavra, a capacidade que o ser tem de falar. Poder-se-ia mesmo dizer que, para os tupis, é a fala o que difere o ser dos animais irracionais, ou das bestas. O ato de falar foi o que humanizou o animal (ou macaco, dentro do conceito da ciência atual), tornando-o homem. Dessa forma, temos que ter em vista que fala e alma são a mesma coisa, expressa no termo: Nheê. Por outro lado, o termo Tetãnheê, que significa a fala propriamente dita, significa ainda a alma do povo e também a sua tradição.


     


    Quando os jesuítas aqui chegaram encontraram, além da língua falada dentro de determinada tribo, um segundo idioma que permitia a comunicação intertribal. Era o nheengatu, que significa fala bonita. Claro, isso entre os tupis. Os jesuítas chamaram este idioma de língua geral, e fizeram uso dele como elemento de catequese e, conseqüentemente, de dominação. Temos ainda a palavra Avanheê, que significa a fala da gente, o idioma.


     


    Aré: Significa moço, o mesmo que tamandaré. Segundo Lessa, seria o homem que se salvou do dilúvio. Dessa forma seria equivalente ao Noé dos cristãos. É preciso registrar que essa lenda ou esse mito, o do dilúvio, existe em vários povos.


     


    Teodoro Sampaio(1) registra o nome, tamandaré, também como o ser que se salvou do dilúvio, com características semelhantes e narra o seu mito, bem como os mitos similares de outros povos americanos, da forma como apresentarei em outro capítulo.


     


    Continuando com o significado de algumas palavras. Cuéra, que Sampaio diz significar: “Velho, antigo, o que já foi, o passado; velhaco, esperto, entendido.” E diz também que é um “sufixo para indicar o passado dos substantivos, valendo como o prefixo latino. Sufixo também para o plural dos substantivos, pode aparecer na forma de coera, coér, coe”.


     


    Possivelmente relacionado com esse sufixo, há o curioso caso da palavra batuera, muito usada com interior do Espírito Santo no lugar de sabugo (de milho), que o Aurélio registra como: uma palavra vinda do tupi, que significa aquilo “que foi milho”. Diz ainda que é o mesmo que “sabugo de milho; tamboera, tamboeira. Variação de batueira”. Sampaio não registra a palavra, salvo na forma citada acima, porém diz que tamboera pode ser ainda “os restos, o cadáver, os resíduos inúteis”.


     


    Outra curiosidade, digna de registro está relacionada com a palavra Tambaquí (Tamba-quí), que Sampaio registra como “o resíduo de ostras, o casqueiro – o mesmo que sambaqui –, tem uma variação, no caso uma palavra de som aproximado: tam-bá-quí, que é ‘a ponta do monte de Vênus, o clitóris’. Alteração de sambaqui”.


     


    Quando falamos dos índios, seus costumes, seu modo de falar, inclusive a variação de sua fala, “temos que ter em conta uma série de preconceitos que alimentaram os relatos dos primeiros cronistas, devido ao forte impacto cultural” ocasionado pela diferença de culturas. O que era natural, se analisarmos a luz dos conhecimentos de hoje. Lemos, em autores como Gabriel Soares de Sousa(2), descrição dos tupinambás repleta daquilo que hoje chamamos de preconceitos. Em um determinado capítulo do seu livro, por exemplo, sob o título: “Que trata da luxúria destes bárbaros”, o cronista diz: “São os tupinambás tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam [...]” e descreve os hábitos culturais daquele povo que ele julga “como uma prática constante de aberrações sexuais”.  


     


    Gilberto Freire acha, porém, que “Era natural a europeus, surpreendidos por uma moral sexual tão diversa da sua, concluírem pela extrema luxúria dos indígenas; entretanto, dos dois povos, o conquistador talvez fosse o mais luxurioso(3)”.


     


    Vários outros autores da época recorrem aos mesmos esquemas mentais ao falar dos costumes sociais dos índios. Somente em nosso século, depois da saga de Rondom, é que se começou a ser mais tolerante com povos de culturas diferentes. Gilberto Freire(4) já valoriza o papel do índio, em particular da índia, mostrando que nada havia de luxúria em sua fácil entrega sexual ao homem branco. Também Capistrano de Abreu(5) reconhece que “da parte das índias a mestiçagem se explica pela ambição de terem filhos pertencentes à raça superior, pois segundo as idéias entre eles correntes só valia parentesco pelo lado paterno.” Por isso explicava-se que “[...] as mulheres eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses(6).”


     


     


    Araken Vaz Galvão


    arakenvaz@gmail.com


    arakenvaz.blogspot.com


     








    (1) SAMPAIO, Teodoro. História da Fundação da Cidade do Salvador – obra póstuma – Topografia Beneditina Ltda. – Bahia, 1949, pág. 63.



    (2) Casa Grande & Senzala, José Olímpio Editora /INL-MEC, 20ª Edição, Rio de Janeiro, R. J., pág. 308/9.



    (3) FREIRE, op. cit., pág. 101.



    (4) Op. cit., pág. 89/95.



    (5)  Apud Gilberto Freire, Casa Grande & Senzala, José Olímpio Editora /INL-MEC, 20ª Edição, Rio de Janeiro, R. J., pág. 92.



    (6)  FREIRE, Gilberto, ob. cit., pág. 93.



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