O Tupi Nosso de Cada Dia (III) - Araken Vaz Galvão
Todas as quartas-feiras, quando vou participar das reuniões do Conselho Estadual de Cultura – CEC – em Salvador(*), ao sair de minha casa, em Valença, passo em frente de um estabelecimento comercial que se chama “Maria do Mingau”.
É mais do que uma
casa de pasto, já é quase um ponto turístico, uma parada obrigatória devido a
excelente qualidade e fartura do café da manhã que serve. Daí as filas de carro
à porta, com a casa permanecendo cheia até por volta das dez da manhã.
(*) Moro
na cidade de Valença, BA, e esta observação refere-se a minhas viagens
semanais, em uma distância de 250 km, que é feita de carro, balsa e carro novamente.
Cito isso porque durante a viagem
da minha família para Minas – da qual falei no primeiro capítulo –, quando
estávamos nas estações ferroviárias, havia miríades de vendedoras de mingau; de
milho, de puba ou carimã, de tapioca, de araruta, e até de arroz ou de outras
farinhas mais requintadas.
Deixando um pouco de lado aquela
longínqua viagem de minha infância, e fixando-me nesta pequena que faço
semanalmente para comparecer ao CEC, depois de passar pela casa de “Maria do
Mingau”, começo a ler um livro que sempre levo, como forma de quebrar a
monotonia da repetição da viagem. Chego a Bom Despacho, na ilha de Itaparica, e
deparo-me com os gritos de mulheres e homens vendendo “bolo de carimã, pamonha
de carimã, amendoim cozido”, além de mingaus dos mais variados tipos. Carimã,
pamonha, amendoim e mingau são palavras tupis. Vejo-me novamente frente ao tupi
nosso de cada dia. Lamento apenas que todas aquelas iguarias sejam muito doces,
e eu, sendo diabético, já não posso mais consumir açúcar...
Ao ouvir falar em bolo de
tapioca, sempre penso que o pessoal do sul costuma erroneamente chamá-lo de
beiju dos índios, – o “MBEIJU, o enroscado, o enrolado, o bolo de mandioca (da
goma ou polvilho) torrado”, de tapioca. Esta palavra oriunda do tupi TYPY-OCA,
que vem a ser – segundo Sampaio – aquilo que é “retirado ou colhido do fundo; o
sedimento, o coágulo, o resíduo do suco da mandioca”, ou seja, aquilo que nós,
baianos, chamamos de goma e em Minas é polvilho doce ou fécula de
mandioca.
Com a puba ou carimã – que Sampaio registra
como “QUIRIN-MÃ, o bolo tenro, ou punhado de coisa macia. É o produto da
mandioca fermentada e amolecida” – também ocorre o mesmo, eles, no Sul,
chamam-na de polvilho azedo. Os mineiros fazem com ela, a puba ou carimã, o
delicioso pão de queijo.
Com a mente repleta de lembranças
de palavras tupis, embarco no ferry – que vem a ser o nome com que a
aculturação impôs no lugar de balsa –, lá encontro mais vendedores com os mesmo
produtos. Fixo-me no mingau, por lembrar-me de uma passagem minha pela Bolívia.
Estávamos, meu amigo Zenildo Barreto e eu, em casa de uma amiga, que era
deputada de um partido da esquerda de lá. Ela tinha uma filha, a que chamava de
wawa, que vem a ser menina – se não me equivoco com a grafia – em aimara, um
dos idiomas do altiplano Andino. Não sei por que motivo a menina não queria
comer, sugeri que ela fizesse um mingau de milho, ao que ela, minha amiga,
inquiriu-me: O que é mingau?
Dei-lhe uma longa explicação. Mas
naquele momento eu mesmo não sabia que mingau era uma palavra tupi. Só anos
depois fui ver no dicionário. O que encontrei no Aurélio é o que se segue:
“Mingau: (tupi) Papa de farinha de trigo ou de mandioca. Iguaria de
consistência pastosa, feita geralmente de leite açucarado e engrossado com
farinha”. Com essa primeira consulta vi como a língua é dinâmica. Claro que os
índios nunca fizeram mingau de farinha de trigo, faziam-no apenas de araruta,
milho ou goma ou farinha fina de mandioca. O civilizado é que o fizera de
outras farinhas. Sampaio registra-o como “MINGÁU (Mingá-u), o comer visguento, as
papas ralas de mandioca. Isso é, em respeito à etimologia, mingaû”.
Por essa via, lembrei-me de minha
mãe, quando acordávamos com aquela matéria mucosa que se acumula na boca das
crianças durante o sono, e ela nos dizia que aquilo era o “Mingau-das-almas”.
Foi no Aurélio que descobri que o mingau de puba tem, em tupi, uma denominação
específica: Mingaupitinga.
Lembrar-me de minha mãe, por
razões que eu mesmo desconheço, penso em comida, talvez por ela está sempre na
cozinha cuidando do alimento das suas crias. Por essa lembrança, tenho que
chegar à culinária baiana. Além do mais, falar em comida sempre dá fome... E
nesse viés da cozinha tupi, vamos quebrar alguns mitos.
O primeiro deles é relativo a
palavra caruru.
Caaruru: Cuja corruptela a
transformou em caruru, significa mato de folha grossa, intumescida, sumarenta.
É também o nome de uma iguaria da culinária baiana, hoje célebre, que era feita
originalmente com a erva conhecida como língua-de-vaca(1). Se hoje ela é feita
com quiabo(2), deve-se, por certo, ao íntimo contato entre dois povos
subjugados: os índios e os negros. Não nego que a comida tenha sido modificada
pelos negros, a palavra, porém, é tupi.
(1) Esta
saborosa erva, que pode ser classificada como hortaliça, ainda que só seja
cultivada no fundo dos quintais das pessoas muito pobres, cujo nome popular
“língua-de-vaca” (Chaptalia integérrima)
vem de um dos seus nomes indígenas: língua de tapira ou de anta (tapiirapecu), é conhecida também como suçuaia,
variedade que possui o nome científico de Elephantopus
scaber, além de saborosa, possui muito ferro.
(2) Esse
fruto, quiabo, embora o Aurélio informe que a palavra é de origem incerta,
possivelmente veio da África, trazido pelos portugueses e não pelos escravos,
porque – convenhamos! – nenhum homem acorrentado e transportado em condições
infra-humanas teria condições para trazer sementes. Se o fizesse, comê-las-ia,
por certo, nos momento de fome aguda.
Aliás, sempre que encontramos uma
comida indígena em cujo preparo hoje entram dendê e coco, não há dúvida, aí
está a mão do negro. Ou melhor, a mão da negra. Moqueca é um desses casos. Os
diferentes povos africanos em geral – refiro-me aos da África Negra – eram
fundamentalmente guerreiros, pastores e caçadores. A pesca era – devia ser – a
última das atividades daqueles povos. E isso se explica facilmente pela
abundância de caça. Matar um antílope, por exemplo, garantia comida farta para
toda uma numerosa família. Já a pesca, além da sujeição aos imprevistos das
marés, implicava em se conseguir uma grande quantidade de pescado. E se essa
fosse realizada em rio as dificuldades eram bem maiores.
Entre os africanos a pesca era a
exceção, ao contrário dos nossos índios. Em nossos rios estão (ou estavam) –
afirmam alguns especialistas – 75% dos peixes de água doce do mundo. Enquanto
em nossas selvas rareavam animais de grande porte(3) e possuía fartura de
peixes, por isso podemos dizer que nossos índios – mesmo aqueles que praticavam
a agricultura – eram em primeiro lugar, pescadores, caçadores de animais de
pequeno porte e, claro, guerreiros.
(3) Excluídos os bisões das pradarias dos Estados Unidos, e alguns rebanhos de
grandes animais do norte do Canadá, tínhamos os tapiíra (antas), animais solitários, que só se encontram para o
acasalamento, e os caititus e queixadas, que viviam em bandos. Os veados, que eram animais de porte, não viviam em
bandos, o que predominava entre nós eram os peixes.
Nada mais natural que todos os
quitutes, baianos, no caso, a base de pescado, hoje atribuída aos negros, nada
mais seja do que comida indígena na qual a mão perita da negra colocou seus
temperos, em particular, o dendê e o coco, porque o amendoim e a castanha de
caju(4) e o coentro largo ou da Índia, por exemplo, são produtos da terra.
Assim chegamos à moqueca.
Mas isso, a moqueca, é assunto
para o próximo capítulo.
(4) Outros ingredientes típicos da suposta culinária negra, como o gergelim e a
gengibre, são, respectivamente, de origem árabe e chinesa, e foram acrescentados
mais tarde. Quanto às pimentas, quando os escravos aqui chegaram os índios já a
comiam, sendo a mais famosa delas a cumbari ou comarim.