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Um homem que dedica um livro de poesias "aos que não enlouqueceram nem lucraram com a loucura alheia" aprendeu que é difícil não enlouquecer neste mundo. Neste mundo onde uns lucram com a loucura, dor e agonia do outro, o Acrobata pede desculpas e cai na paz e em algum campo de papoulas aonde todos os seus sonhos vão se tornar reais em cada flor, em cada flor.
Li em muitas matérias de escritores e jornalista uma dúvida sobre - qual seria o grande romance brasileiro do século XX - falavam assim como falam quem será o próximo Guimarães Rosa ou a próxima Clarice Lispector. Como em Curitiba vivem sondando o próximo Leminski... Uma noite em um café o Rodrigo Madeira falou, enquanto fumava um cigarro e uma garoa fina caia na praça Santos Andrade: Estão sempre querendo achar o melhor, não é? Eu sorri e nos calamos em um silêncio que dizia mais que a nossa vontade de que a poesia fosse sempre maior que tudo. Rodrigo Madeira e eu não estamos com os olhos nesta disputa provinciana, estamos buscando contato com os verdadeiros monstros da poesia. Rodrigo me confessou que em uma noite, após ter conseguido o telefone do Ferreira Gullar, ligou para o poeta; eu, escrevi ao Fausto Wolff há uns seis anos e me debulhei como fã ardorosa, e ele teve a ousadia de publicar meu poema Labirinto em seu blog antigo. Para quebrar este rito de não me preocupar com o pódium, devo dizer, como uma homenagem verdadeira: Fausto Wolff escreveu o maior romance brasileiro do século passado. Entre tantas opiniões, nada vai abalar a minha opinião. À mão esquerda é um livro possante, e só um escritor potente em todos os sentidos pode escrever sua autobiografia e torná-la uma obra de arte sem rasura, Joaquim Nabuco fez isto com Minha Formação. Mas, vivemos em um país onde seus grandes escritores são esquecidos, e isto de forma mais violenta se ele tem a coragem que Fausto Wolff tinha. Quando menina eu via aquele rosto jovem e bonito, no tempo que ele foi apresentador de TV, me apaixonei pela imagem, e a vi depois, lendo - À mão esquerda. Minha paixão platônica dos quinze anos, voltando nas páginas de um livro escrito com uma verdade e uma poesia que arrancava lágrimas, risos e todo o campo da alma e cada milímetro palmilhado dentro de mim, exultava por aquele menino precoce, que se torna jornalista aos 14. Um homem que ama e seduz todas as mulheres que encontra. Um lobo que encontra o amor na meia idade e toma posse dela, pois é preciso viver o amor em calmaria. Um revolucionário ardente, inteligente, instigante, mas, sofrendo às raias da loucura, por entender que é preciso ser muito forte para não enlouquecer neste mundo. De poeta para poeta, toda a imensa saudade. Fausto Wolff, um lobo na eternidade.
IDADE
Às vezes, Os deuses que fodem Na névoa do teu cérebro Se vingam. Outras não. Por via dessas dúvidas Etílicas É preciso tomar cuidado. Livra-te, portanto, Do canalha, idiota, torturador Que, sorridente, Enche o teu saco Na mesa ao lado.
O INVASOR
Dizem que não trabalho as vírgulas. Acusam-me de ignorar as hipérboles. Riem dos pontos da minha exclamação. O único Alexandrino que conheço Era almirante em Botafogo. Querem um poeta que ponha a rima rica No fogo. Não sei ser tão complicado. Minhas metáforas entendem Seu próprio significado.
LIVRO
Nem sei como me ajeitei Sem me machucar muito Na máquina de moer fé. Acho que fui protegido Por um livro Achado no lixo Chamado Robinson Crusoé.
LIBERDADE
Fure os tímpanos Corte a língua, Vaze os olhos com um garfo, Ponha ácido nas narinas, Corte as mãos. Dance na escuridão da cela Do tamanho do seu caixão. Então sim, possibilidade.
. FAUSTO WOLFF - O pacto de Wolffenbüttel e a recriação do homem (Bertrand Brasil, 2001) este livro tem na contra-capa uma carta do Manoel de Barros... . Carta de Manoel de Barros sobre o primeiro livro de poesia - Cem poemas de amor e uma Canção despreocupada. Campo Grande 5/11/00 . Caro poeta Fausto Wolff,
Você não tinha nada que pedir desculpas por sua poesia que é poesia que é poesia. O que a gente sente é que você pegou a tarefa de livrar o mundo de suas chagas. Trabalhou e trabalha ainda através de seu verbo sarcástico para atacar as hipocrisias, etc. Por tudo isso o poeta foi abafado. Estava lendo os seus poemas com a Stella e ela comentou: como que um homem tão enorme, tão comunista e tão alcoólatra (como está confessando) pode ter uma alminha de borboleta e de passarinho! Eu respondi: é porque o Fausto brigador abafou o poeta. E porque a liberdade do poeta é terrível carcerária. Só agora deixou escapar por uma fresta a sua alminha de ternuras. Nossos parabéns e nossos beijos. Stella e Neguinho.
Publicado por Bárbara Lia, dia 07 de setembro de 2008, no blog Chapar as borboletas. |