Chinelada no jovem jornalismo brasileiro
Por Bernardo Horta e Rodrigo Correia
No relançamento de O Pasquim, o franco-atirador Fausto Wolff, escritor genial e maldito, não deixa pedra sobre pedra
Considerado um dos melhores escritores brasileiros, Fausto Wolff apresenta uma visão lúcida e incisiva da realidade do país, ao fazer uma crítica radical, rara nos tempos pós-guerra fria, marcados pela apatia e a acomodação do povo e, principalmente, dos intelectuais e artistas. Inteligentíssimo, bem-humorado, irônico e, por vezes, sarcástico, Fausto é visto, por muitos, como um maldito.
Além de ser um dos fundadores de O Pasquim - que está sendo relançado no país -, escreveu várias peças teatrais, fez inúmeras traduções e já publicou cerca de 20 livros. O primeiro, O acrobata pede desculpas e cai, lançado em 1964, ganhou o "Prêmio Revelação" do Jornal do Brasil. Mais recentemente, a editora Bertrand Brasil publicou O nome de Deus e O lobo atrás do espelho, de sua autoria. Nesta entrevista exclusiva a Parem as Máquinas, Wolff recorda os bons tempos da Banda de Ipanema e do Bar Veloso - hoje Garota de Ipanema -, onde conheceu Vinícius de Moraes e Tom Jobim. "O Pasquim é afilhado da Banda de Ipanema", conta.
Também critica o jovem jornalismo brasileiro e assegura que a ditadura militar permanece viva, com nova roupagem. Ele é daqueles raros intelectuais - sobretudo, brasileiros - que ainda conservam o fundamental espírito de resistência e indignação que alavanca as transformações. Rápido no gatilho, o franco-atirador não poupa nada e ninguém: "O problema da classe dominante brasileira é que ela é tão canalha, que odeia o povo que a sustenta", dispara.
Fausto, você nasceu no Rio Grande do Sul, onde começou a trabalhar num jornal, ainda adolescente. Depois, veio para o Rio de Janeiro. Com que idade?
Nasci em Santo Ângelo, no Rio Grande. Eu e o Luís Carlos Prestes, que vim a conhecer aqui no Rio, mas só me aproximei dele na primeira campanha de Leonel Brizola para o governo do estado, em 1982. Era uma vergonha, sempre que conversávamos eu chorava, ficava muito emocionado - ele com 1,50 m, e eu com 2 m. Mas, voltando à pergunta, minha família veio pro Brasil em 1824, foram os primeiros imigrantes alemães a chegar no país. Desembarcaram no Rio Grande do Sul, enganados por D. Pedro I. Com a Revolução Farroupilha, todos os nobres morreram, gastamos muito dinheiro, e acabamos numa quase-favela em Porto Alegre, que hoje ironicamente é o bairro mais chique da cidade. Em 1945, meus pais se mudaram para Porto Alegre e, em 54, aos 14 anos, passei a trabalhar em jornal. Comecei no Diário de Notícias dos Diários Associados. Eu era uma mistura de contínuo e auxiliar telefônico da seção de polícia. Também trabalhei no Jornal do Dia, A Hora, Revista do Globo e na assessoria de imprensa da Universidade do Rio Grande do Sul. Cheguei ao Rio de Janeiro em 1958, com 18 anos, e fui morar numa pensão no Flamengo. Vim sozinho. Aqui, fui repórter da revista Manchete, escrevi pro Diário de Notícias, tive uma coluna sobre televisão no Jornal do Brasil - aliás, a primeira coluna séria sobre o assunto - e uma coluna de teatro na Tribuna da Imprensa. Fui assessor do diretor de programação da Rede Globo de Televisão, Mauro Salles, e também passei pela Última Hora. Isso entre 62 e 68.
Foi nessa ocasião que você conheceu vários intelectuais e artistas que fizeram história na noite e na cultura do Rio de Janeiro. Naquela época, a cidade era pontuada por bares tradicionais, como o Veloso, que posteriormente viria a chamar-se Garota de Ipanema. Como você passou a freqüentar a boêmia carioca?
Foi com a turma do jornal, logo que cheguei ao Rio. Às vezes, ia ao Veloso com o Roniquito Chevallier, irmão de um amigo meu da Manchete, o Stanley, redator. As irmãs deles, a Bárbara e a Scarlet Moon, ainda eram meninas. Havia poucos bares em Ipanema, como o Zeppelim, o Bofetada, o Mau Cheiro e o Veloso - este último levava o nome do dono e era muito freqüentado por famílias. O Bar era muito menor, tinha a quarta parte do que tem hoje. Nós costumávamos ficar do lado de dentro. Nos anos 70, os portugueses compraram o Veloso e começaram a conquistar espaço na Prefeitura, fazendo dali um ponto turístico. Na realidade, o Veloso nunca teve um nome pendurado na porta. A primeira vez que colocaram um letreiro foi quando ele virou Garota de Ipanema. Isso se deu pelas modificações que o bairro viveu. Ipanema tornou-se famosa, basicamente, pela música composta por Tom e Vinicius, a Banda de Ipanema e O Pasquim. Quando mudaram o nome do Bar, não gostei. De qualquer forma, naquela época, eu estava mais preocupado com a ditadura, com o AI5, que já se anunciava. Fui embora do Brasil duas semanas antes do AI5, pensei que passaria seis meses fora - na verdade, foram dez anos. Na ocasião, fui informado de que seria preso. Eu conhecia o Magalhães Pinto, então ministro das Relações Exteriores, e ele me disse: "É melhor você puxar." Aí fui embora, sozinho.
Escolhi a Itália porque tinha uma mulher lá. Sempre que eu faço uma besteira, tem uma mulher envolvida. Chegando na Europa, consegui trabalho como professor de literatura brasileira na Universidade de Nápoles, graças ao fato de que meu verdadeiro nome não é Fausto Wolff - este é meu pseudônimo. Também por isso pude vir ao Brasil durante a ditadura por três vezes, clandestinamente. Mas, logo depois, o Itamarati soube quem era quem e tentou me tirar o trabalho e o passaporte. De qualquer forma, fiquei em Nápoles três anos, pois a Universidade bancou. Na ocasião, havia começado a escrever para O Pasquim, era correspondente - "Fausto Wolff, da Itália". Certamente, os caras do Itamarati deduziram que eu e o Fausto éramos a mesma pessoa...
Você passou os dez anos de exílio na Itália?
Não, em 1972 fui para Dinamarca, quando me tornei professor de literatura na Universidade de Copenhague. Eu tenho uma filha dinamarquesa e dois netos. Lá, também dirigi teatro e escrevi para cinema
Na Europa, além de dar aulas, você trabalhava em quê?
Fui correspondente de O Pasquim durante algum tempo. Quando o jornal foi criado, em 1969, eu já estava fora do Brasil, mas o fundei e participei, de longe. Eu já conhecia o Jaguar da revista Manchete e havia trabalhado com o Ziraldo e o Millôr Fernandes em O Cruzeiro, quando nem tinha 20 anos. Eles são meus amigos há mais de 40 anos e criaram um dos veículos de imprensa mais significativos da história do país. O Pasquim teve uma importância não apenas nacional, como mundial. Foi um jornal que mudou a linguagem jornalística para sempre - só que, hoje, ela está sendo mal aproveitada. Nós, que simplificávamos o discurso e procurávamos falar a linguagem bonita do povo, inventiva, éramos em verdade os jornalistas mais cultos e mais honestos do país. Agora, os jornalistas escrevem de maneira simplificada porque não sabem redigir duas frases sem "colocar" alguma coisa em algum lugar - ou afimar que "a nível de...". Naquela época, dizíamos coisas importantes de modo que todo mundo pudesse entender. Até então, o discurso jornalístico era pesado, distante e sobretudo hipócrita - como é hoje, não mudou nada, apenas a qualidade da redação piorou muito. O Pasquim foi uma feliz coincidência: os melhores jornalistas do Brasil eram também os mais honestos e, além disso, éramos bem mais jovens. Quando o jornal começou, eu tinha 29 anos, o Sérgio Augusto, 28, o Tarso de Castro e o Henfil, 27... Durante o exílio, a primeira vez que voltei ao Brasil foi para cobrar dinheiro a O Pasquim, depois vim mais duas vezes.
E quando você retornou para o Brasil, em 1978? Após voltar ao país, poderia ter trabalhado num grande veículo de imprensa, mas eu estava horrorizado com o que havia se passado aqui, e não quis. Como já disse, em 65 havia trabalhado na Globo - saí seis meses depois e nunca mais passei na porta. Imagine nos anos 80... Eu preferi ser um dos editores de O Pasquim, onde fiquei até 1991, quando o jornal acabou. Basta dizer que, mesmo estando fora do Brasil, eu sabia muito mais sobre as coisas que aconteciam no país do que as pessoas que estavam aqui. Quando voltei, a imprensa encontrava-se extremamente comprometida - e hoje está ainda mais. Em uma democracia, você precisa de ter os três poderes independentes, e o quarto poder, a imprensa, também. Mas quando você tem o judiciário, o legislativo, o executivo e a imprensa de um mesmo lado - do lado do poder -, significa que há uma ditadura.
Em 1965, por que você saiu da Globo?
Na época, eu era muito ingênuo, tinha 25 anos, e acreditava que a TV poderia ser uma máquina de humanização. Quando vi que eles estavam querendo imbecilizar o povo, como estão fazendo até hoje, eu saltei - e voltei para a coluna de TV do Jornal do Brasil. Preferi escrever.
Ainda sobre as emissoras de televisão, você considera que mesmo programas educativos e culturais, apresentados por canais abertos e de TV a cabo, são insignificantes? Ou se trata de um mea-culpa daqueles que participaram do regime militar?
Trata-se de pura demagogia barata. Você acha que algum operário, alguma empregada doméstica, tem tempo ou interesse em ver aquilo? Eles já foram bestificados, estratificados na miséria. Agora, o que lhes interessa é o bispo Macedo. É preciso regenerar a classe dominante, para que ela deixe de roubar e tenha coragem de educar os cidadãos. O problema da classe dominante brasileira é que ela é tão canalha, que odeia o povo que a sustenta - e agora, com os computadores, o povo tornou-se desnecessário. Um banco despede seis funcionários, contrata uma menina que mal sabe digitar, e obviamente dá tudo errado... É o samba do crioulo doido.
Albino Pinheiro, seu amigo, fundador da Banda de Ipanema, faleceu em junho de 1999. Certa vez, na revista Bundas, você escreveu um texto em homenagem ao Albino. Nele, lê-se: "Ele não estará aí para ver o bobo ano 2000." Certamente, você esperava um outro Brasil na virada do milênio...
O Albino está no meio disso tudo, basta dizer que O Pasquim é afilhado da Banda de Ipanema. Foi o pessoal da Banda quem fez o jornal. É uma questão de geração - a nossa geração era mais politizada, mais interessada no que o poder fazia, e mais crítica em relação ao poder. Será que o relançamento de O Pasquim não faz com que vocês, jovens jornalistas, pensem um pouco que foi preciso um bando de velhinhos relançar um antigo veículo para termos alguma coisa de oposição nesse país? A geração de jornalistas dos anos 80 e 90 precisa ser questionada. Nós, da década de 60, tivemos de retornar para fazer uma coisa que os nossos filhos e netos não fizeram, e até agora não conseguiram fazer.
E a que você atribui essa inércia, essa apatia das gerações mais novas? O que aconteceu?
Vou tentar explicar da seguinte maneira: foi preciso uma ditadura para acabar com o falso perigo da esquerda, do comunismo no Brasil, essa coisa toda. Fizeram essa ditadura com o auxílio e o dinheiro do Pentágono. A TV Globo, não por acaso, nasceu no mesmo ano em que o regime militar. Antes disso, o brasileiro era um povo culto, artístico, que tinha uma das melhores músicas do mundo, tinha o melhor futebol do planeta e uma imprensa em que um garoto pobre, que tivesse talento, conseguia aparecer, ser alguma coisa - foi o que aconteceu comigo. Eu venho do proletariado, da imprensa comunista, juvenil. Meu pai era barbeiro e nunca fui de classe média. Só estudei até a segunda série ginasial. A primeira vez que entrei numa Universidade foi para ensinar. Até o golpe militar, os jornalistas tinham uma visão mais ampla, dirigida ao personagem central do país, que é o povo - porque eles enxergavam o povo. Tínhamos uma cultura esportiva, popular e jornalística forte, e os estudantes eram muito ligados na política. Então, em 1964, criou-se a TV Globo e, com o tempo e as novelas, a emissora foi imbecilizando as pessoas gradativamente. Quer dizer, um veículo que poderia humanizar e encurtar distâncias, cretinizou a população - e com a censura e a propaganda maciça da televisão durante 25 anos, foi possível domesticar o povo. Somente então a ditadura largou o osso, mas aí veio aquela campanha da direita, bancada por muito dinheiro, como foi o caso das eleições de Fernando Collor e depois de Fernando Henrique Cardoso. O povo basicamente não errou, porque votou em quem fez a melhor propaganda. Não havia mais a necessidade do regime militar. Quando o Figueiredo tirou o time, ele sabia que podia entregar, pois a ditadura já estava instalada na mente das pessoas. Em compensação, em nome do amor livre, da falta de preconceitos, criaram-se aberrações como a Xuxa, a Tiazinha, essas coisas robóticas que estão aí, como as novelas de televisão. O povo não come, mas vê televisão. Nós ainda vivemos numa ditadura que perpetuou-se, mas não a sentimos mais. E posso garantir a você que a suposta "abertura política" não fez diferença nenhuma para os pobres, porque estes continuam apanhando da polícia e indo para a cadeia. E o pior: a imprensa não aproveitou a liberdade de expressão que veio com a "abertura" - ao contrário, quando foi declarado o fim da censura no país, eu comprei todos os jornais e as pessoas só queriam saber se o padre tinha comido a filha do detetive. Na época, o assunto em pauta era se a filha do detetive particular Bechara Jalk teria sido ou não estuprada por um padre em Ipanema. Ou seja, depois de 25 anos de ditadura, todos só queriam saber disso, estavam todos robotizados. Antigamente, você ia a um botequim ouvir o que a população tinha a dizer. Hoje, eles conseguiram emburrecer o povo - nem de futebol ele entende mais. Só sabe que o Ronaldinho ganha tanto, que fulano fatura menos, e projeta todos os seus sonhos nessas pessoas, que saem da pobreza e se vêem com milhões de dólares. O que é o Ronaldinho, hoje? A Tiazinha, a Xuxa? São caricaturas de seres humanos. Por quê? O que nossos governantes tentaram impedir ao máximo e acabaram conseguindo? Educação para os brasileiros.
Um povo educado e culto é um povo que exige coisas - sabe quando está sendo usado -, ele vai perguntar: "Sim, mas por que eu tenho de fazer isso?" Já um povo ignorante, não. Agora, estes governantes correm um sério risco, porque, além da ignorância, está havendo a fome - e a fome e a ignorância juntas levam à violência. Vai chegar um dia que eles não vão mais poder ficar escondidos nos seus castelos de samambaias e vidro fumê na Barra da Tijuca - e isso já está acontecendo, porque essa elite está contratando cada vez mais vigilantes. A dúvida é se a máfia pode pagar ainda mais a estes vigilantes para roubar a casa do patrão...
Portanto, a seu ver, a programação televisiva é totalmente imbecilizante...
Uma cretinização total, bobagem pura. Assistindo a uma novela, por exemplo, parece que estamos vivendo num outro país. Aí, você vai dar uma volta e sem querer pisa em mendigos, espalhados pelas ruas. O que o Fernando Henrique está tentando fazer é desintegrar o Brasil, no sentido de não integrar o povo ao país, acabar com a classe média e criar uma população de uns 15 milhões de consumidores - na compreensão dele, seria uma bela nação. Quinze milhões de pessoas comprando e o restante da população que se exploda. Se você hoje vai a um shopping center, percebe o seguinte: o cara que comprava o smoking ou o blazer a oitocentos, mil reais, continua comprando. Agora, quem comprava na época em lojas de classe média, está indo a lugares populares, onde pode encontrar alguma coisa a vinte reais. Atualmente, nós vivemos uma farsa nesse país, uma grande hipocrisia. Quem pode viver com um salário mínimo? Gasta-se mais com a ração de um cachorro, do que um trabalhador ganha por mês!
Você acha que com a queda do muro de Berlim - o fim da guerra fria -, quando uma antiga ordem mundial desmoronou, houve uma vulgarização da miséria, ou seja, a pobreza passou a ser considerada mundialmente uma coisa normal?
Certamente houve uma banalização da violência, da indiferença e da crueldade. O que tem de idiota por aí comprando livros do Paulo Coelho, não é brincadeira. As pessoas não acreditam mais num Deus barbudo, que pune os maus e recompensa os bons - e como são extremamente ignorantes, para tentarem se educar e se conhecer, querem ver gnomos, jogar tarô, búzios, para dar uma certa significância às suas vidas. Esse emburrecimento é mundial, mas é claro que se faz sentir mais nos países do terceiro mundo.
Você chegou a conhecer o Fernando Henrique quando ele ainda era um sociólogo de esquerda?
Nunca considerei o Fernando Henrique como sociólogo de esquerda. Sempre o vi como um filhinho de papai, irritado com o pai general e querendo dizer: "Eu vou ser o contrário do senhor!" - mas, na realidade, jamais deixou de ser rico e sempre foi um canalha. Nunca tomou uma atitude decente na vida, que eu saiba.
Você acha que o PT continua sendo um partido que oferece diferencial na política brasileira?
É bom correr, porque existem alguns deputados petistas que estão com uma incrível coceira para cair na direita. Se pudessem, já estariam no PSDB. Eu acho que, há uns dez anos, Leonel Brizola apoiado por Luís Carlos Prestes, teria sido uma bela solução, pois a única saída do Brasil é através da educação e do resgate cultural - do contrário, se esqueça dele como país, esqueça até da língua, que aliás é uma língua que nem se fala mais. Não sei que língua se fala no Brasil - é uma mistura da pior vulgaridade popular com o mais crítico academicismo barato. É impossível que não se saiba que "a nível de" está errado, e que o certo é "em nível de". Ou, senão, lemos: "Eu, enquanto jornalista..." - "enquanto" o quê?!
Você acha que o Brizola, no contexto político atual, tem chance de influir na próxima eleição para presidente?
O Brizola se uniu a muitos traidores. As pessoas em que ele confiou eram traíras. Eu voto nele desde que se candidatava no Rio Grande do Sul, e, até hoje, conversamos umas três ou quatro vezes, raramente, quando ele mandava me chamar - já o Marcello Alencar e o César Maia estavam sempre por perto, eram considerados grandes amigos. O Brizola é um homem decente - mas a questão é que o poder adora a mediocridade. Parece-me que todo o governante precisa de gente medíocre ao seu redor - qualquer dono de jornal, qualquer ignorante. O político chega ao poder e aproxima-se de gente que rouba, até para que possa dizer: "Cala a boca ladrão, você rouba!" O poder não gosta de crítica. É por isso que eu não duro muito em cargo nenhum, pois sou muito crítico. Você vê que pouca gente me conhece, eu estou no jornalismo alternativo há 20 e tantos anos. É raro eu dar uma entrevista na televisão.
Você comentou sobre a necessidade de mudança na mentalidade das classes dominantes. Como se daria isso, em termos práticos?
A classe dominante nunca vai mudar por si mesma. Ela só vai mudar quando se sentir ameaçada por 99% de brasileiros que não vão agüentar mais. E quando isso acontecer, não precisaremos mais de orientação política ou de cultura, pois quem tiver meio dente de ouro na boca será considerado milionário. Aí vamos ter canibalismo e o diabo... O que me impressiona é que estes corruptos, junto à população, têm prestígio, são populares e até mesmo ídolos! Essa gente rouba e é considerada ótima, linda. O Antônio Carlos Magalhães é adorado na Bahia, e todo mundo sabe que 25% da publicidade do Governo vai pro bolso dele. É visível que estas pessoas roubam, mas o povo foi levado a uma indignidade mental tão grande, que acha graça e aplaude os corruptos.
Você foi candidato a deputado federal duas vezes no Rio de Janeiro, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), mas não se elegeu. Além de atuar como escritor e intelectual, por que pretendia interferir diretamente na política do país?
Na primeira vez, em 1986, tive dez mil e duzentos votos, e na segunda, em 90, dez mil e quatrocentos. Estava sempre entre os primeiros colocados, até O Globo me apontava entre os primeiros colocados - e, isso, sem um automóvel para fazer campanha. O problema é que eu não tive dinheiro para comprar o pessoal da contagem de votos, os apuradores. Mas não estava nisso para ganhar dinheiro, o que queria era interferir em Brasília. Dinheiro eu ganho, com certeza, trabalhando dez horas por dia.
Você tem um ritmo intenso de trabalho e escreve muito, diariamente. Dorme pouco?
Muito pouco. Acordo às 4h da manhã para escrever.
Atualmente, além de escrever em O Pasquim, você está colaborando nalgum outro veículo? Está preparando um novo romance?
Neste momento, escrevo em O Pasquim e vivo dos direitos autorais dos meus livros e de traduções, que faço com freqüência. Assim, não me vejo obrigado a estar em contato com essa gente medíocre e não preciso pedir nada a ela.
Na produção cultural do país, que manifestação se destaca, oferecendo reação de crítica?
Eu gosto do cinema do Paulo Cezar Saraceni e do Nélson Pereira dos Santos, pois eles discutem a questão social, o contexto em que nós vivemos. Não existe texto sem contexto. Também acho o Walter Salles muito bom como cineasta, mas no filme Central do Brasil achei a Central parecida com as Galerias Lafayete, de Paris, de tão clean que aparenta ser. No filme, nossos pobres estão tão limpinhos, tão direitos, tudo tão arrumadinho... Quem quiser realidade que vá no banheiro da Central, à meia-noite, ver o que acontece por lá. Arte não é mercadoria, cultura não é mandamento. Arte faz parte do ser humano - o ser humano se humaniza na medida em que tem cultura. O que faz de mim um brasileiro, e não um japonês, é que sei onde fica a rua em que nasci, quem foram meus pais, sei as canções de roda que cantei - e que a Xuxa acabou com elas -, sei as músicas de carnaval, a história do meu país, sei de onde eu vim, onde estou e para onde vou. O retrato do homem brasileiro hoje é um mulato, sem dentes, com "I love New York" estampado numa camisa, cantando música americana cuja letra ele não sabe. Com esse tipo de povo, é fácil a direita ganhar uma eleição.
No dia-a-dia, o que mais gosta de fazer?
Sou muito reservado, gosto da minha privacidade, de estar sozinho, de jogar nos cavalos... Vou no Jóquei há anos, desde garotinho, toda sexta-feira, sábado e domingo - não monto, porque com o meu peso e 1,93m de altura, só se fosse em corrida de camelos. Me dou mais com os cavalos do que com os seres humanos, embora prefira estes últimos. Manjo muito de cavalo. Além disso, bebo, fumo, jogo, e só não cheiro cocaína porque é proibido.
E quanto ao Rio de Janeiro, cidade que escolheu pra viver, o que mais o impressiona?
Possivelmente o apartamento de primeiro andar, em frente ao Veloso, em que morei quando voltei da Europa, de 78 a 82. Ali, o que mais me impressionava é que eu chegava na janela, e falava assim: "Ô moça, vem cá!" - e elas vinham. Isso acontecia de manhã, quando eu acordava, ou então à tarde, quando a situação invertia-se: eu estava bebendo no Veloso, acenava para a moça em meu apartamento e dizia: "Eu já vou aí." Era uma tranqüilidade, mas agora tudo mudou. Hoje moro em Copacabana e, se fizer o mesmo, sobe um travesti.
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