
 Fausto e os Fogos
Aldir Blanc
E SPECIAL PARA O JORNAL DA ABI
Fausto Wolff é desses raríssimos brasileiros que merece o epitáfio: “Trabalhou até morrer”.
Já sofrendo de algumas seqüelas do quadro que o matou, as letras do teclado por vezes se embaralhavam, mas Fausto não desistia e ouvia-se sua voz a um quarteirão de distância:
- Cadê a porra do F?
Devo muito ao Fausto. Quando eu ainda estava na fase de leitura capa e espada, Charlie Chan, Sherlock Holmes e tal, um amigo do prédio onde morávamos, na Maia Lacerda, coração do Estácio, me convidou pra ouvir long-plays de jazz na cabine da Loja Palermo, que ficava no Largo da Carioca. De lá, fomos parar na Livraria Civilização Brasileira, rua Sete de Setembro. Não sabia que essa tarde mudaria minha vida. Na Palermo, comprei um LP do Oscar Peterson (aquele no qual a primeira faixa do lado A é uma sutilíssima interpretação de Corcovado), com a foto do trio no palco e me apaixonei pela cintilante bateria. E na Civilização, meio duro, acolhendo as dicas do amigo Gilberto, comprei “Tijolo de Segurança”, do Carlos Heitor Cony e o “Acrobata pede desculpas e cai”, do Fausto Wolff. Devorei os livros. Deu-se o rito de passagem e a meninice foi (quase) definitivamente embora, Sandokan, o Pimpinela Escarlate, O Gavião dos Mares e tantos outros heróis cederam lugar aos personagens dos romancistas brasileiros, na Coleção Vera Cruz, da mesma Civilização. Jamais quitaremos a dívida contraída com Ênio Silveira.
Depois conheci o Fausto no Pasquim. Ele carregava vários livros: “Parque Górki”, de Martin Cruz Smith, no original, e outros em francês e alemão. Jaguar estava sentado, de calça lee e botas, sobre uma pilha enorme de revistas estrangeiras, com uma tesoura na mão, acho que organizando uma espécie de arquivo. Minha amizade crescente com Fausto estreitou-se com a troca de opiniões quando escrevíamos na revista Bundas, no Pasquim 21 e no Caderno B. Fausto tinha sempre uma palavra de estímulo, mas não deixava passar cochilos e sabia bater duro.
Muitos contarão histórias fantásticas sobre o Fausto. Tenho a minha. Mari e eu fomos passar um fim de ano com ele e Mônica, em seu apê, na Avenida Atlântica. Orgulho-me de ter sido o primeiro a chegar e o último a sair. Revi o Claudius, o Pamplona, o Chico Paula Freitas, só gente fina. Na hora dos fogos, Fausto virou duas cadeiras para a janela e disse, peremptório:
- Senta aqui, porra!
Ficamos bebendo, sem dar muita bola para aquela meia hora de luzes e esporro. Quando o show pirotécnico terminou, Fausto deu uma levíssima balançada ao levantar e foi descansar rapidinho. Uns quinze minutos depois, reapareceu de copo em punho, virou duas cadeiras pra janela e me chamou de novo:
- Senta aqui, porra! Vamos ver os fogos juntos!
Até hoje, tamanha a força que Fausto me inspirava, fico pensando se ele havia esquecido dos fogos ou se estava determinado a permanecer ali, bebendo, até o fim do ano que começava. Sou ateu, mas se houver outra vida, já tenho a frase que direi ao rever o Fausto:
- Vim ver os fogos, porra!
E cantaremos a Internacional.
Texto de Aldir Blanc para o Jornal da ABI (pg. 47).
Pescado pelo Fernando Soares Campos e repartido lá no seu blog, o ASSAZ ATROZ. |