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    Editorial
    ARACRUZ CELULOSE = OS TERRORISTAS - Dom Tomás Balduíno e Cristiano Kern Hickel

    Em latim "ara crucis" quer dizer altar da cruz. Para nossa sensibilidade cristã a usurpação deste nome para sigla de uma multinacional deste tipo aí soa como uma blasfêmia.

    Aracruz Celulose

    Dom Tomás Balduíno
    Bispo emérito de Goiás. Presidente da Comissão Pastoral da Terra


    A oito de Março, Dia Internacional da Mulher, centenas de mulheres da Via Campesina irromperam, em Barra do Ribeiro, Rio Grande do Sul, nos laboratórios e viveiros da Aracruz Celulose e os danificaram, como forma de tornar pública a indignação camponesa em face da atuação da multinacional no Espírito Santo, em Minas Gerais, Bahia e no Rio Grande do Sul.

    A reação orquestrada pela mídia foi imediata e envolveu muita gente do poder público, da Igreja, da intelectualidade da imprensa, num tom majoritariamente condenatório daquelas mulheres "que agrediram uma tão respeitável empresa que só tem trazido benefícios para o Brasil". Disseram, em suma, que aquilo foi uma ação, incompetente, equivocada, execrável, terrorista... Tais imprecações podem estar servindo de escova para a punição a ser proferida pelo Judiciário, que, nos conflitos do campo, dificilmente compreende outra linguagem que não seja a do direito absoluto da propriedade privada, além de ter uma prática inclemente contra pobres e sem-terra. Começou já neste dia 21 a desforra institucionalizada no desagravo da empresa. Seis policiais armados, cumprindo mandato judicial, arrombaram e invadiram a sede da Associação das Trabalhadoras Rurais em Passo Fundo, RS. Confiscaram documentos, computadores, talões de cheques, até dinheiro e humilharam as mulheres.

    Vejamos, entretanto, o outro lado da moeda: Durante o 5º. Encontro de Fé e Política acontecido em Vitória, Espírito Santo, a 12 deste, fui procurado por lideranças guarani e tupiniquim, revoltadas contra o despejo protocolado pela Aracruz Celulose e executado, a 20 de janeiro, nas aldeias Olho d’Água e Córrego do Ouro, pela Polícia Federal, com 120 agentes, com armas, bombas, helicópteros. Feita aquela "limpeza", os tratores da multinacional completaram o serviço arrasando todas as casas e todas as plantações daqueles índios, os mais pobres entre os pobres.

    Temos ouvido, na CPT (Comissão Pastoral da Terra), clamores de lavradores do Espírito Santo, de Minas e Bahia, inclusive quilombolas, que tiveram de abandonar suas pequenas propriedades, pressionados pelo isolamento em que se encontraram depois da empresa comprar as pequenas fazendas dos vizinhos numa imensa área. O que antes era uma linda constelação de moradores, produzia variedade e fartura, abastecia as feiras da região, virou hoje o soturno deserto verde da monocultura do eucalipto. Grande parte desta gente está passando privações nas favelas das cidades.

    A Aracruz é também responsável pela agonia do rio São Francisco. Com efeito, contam-se cerca de mil e quinhentos riachos que vertiam para este rio e que depois do reflorestamento de eucalipto secaram de vez. Inclua-se aqui a poluição em torno das fábricas de celulose. O Brasil arca com o lixo tóxico e venenoso, a desertificação, o estrago ambiental, a desordem social e o empobrecimento da agricultura, ao mesmo tempo em que vai para a Suécia e outros países do primeiro mundo a celulose super limpa, e os lucros altíssimos nas mãos de uns poucos sócios super ricos.

    O mais grave é que tal atuação da multinacional é nutrida por generosos financiamentos públicos. Eis os dados: Em 2001, com FHC, a Aracruz recebeu do BNDES 666 milhões para sua 3ª fábrica. Ora, no mesmo ano o Governo passou 600 milhões para a agricultura familiar, porém do Brasil inteiro. Agora, em 2005, com Lula, a mesma empresa recebeu do BNDES 318 milhões de dólares para construção de uma fábrica na Bahia. E em dezembro do mesmo ano ela conseguiu a aprovação do BNDES de 297 milhões para a modernização de sua fábrica no Rio Grande do Sul. O prazo de carência é de 21 meses e os juros de 2% ao ano. Ora, os juros cobrados pelo Governo dos agricultores familiares são de 8,75% (Artigo "O Horto Florestal e o Terrorismo", de Cristiano Kern Hickel).

    Eis aí o que motivou a indignação daquelas mulheres, expressa de forma violenta contra a propriedade privada, porém, comprovadamente não-violenta com relação às pessoas. As organizações camponesas só conseguem romper o silêncio da mídia e se fazer ouvir pelas nossas autoridades ocupando a propriedade da terra. Ainda hoje há acampamentos de sem-terra que já completaram seis, oito anos de espera pela reforma agrária, no espírito de Gandhi e de Luther King, de forma mansa e pacífica, sob barracas cobertas de plástico preto, à beira da estrada, sem perspectiva de serem atendidos. Bem diz o provérbio antigo: "A violência é legítima quando a mansidão é vã".

    Em latim "ara crucis" quer dizer altar da cruz. Para nossa sensibilidade cristã a usurpação deste nome para sigla de uma multinacional deste tipo aí soa como uma blasfêmia. Por isso, talvez, as mulheres com dois troncos de eucalipto compuseram a Cruz de sua perigosa e profética marcha pela justiça no campo. Aí já não é mais o nome estrangeiro da opressão colonialista, mas o símbolo bem brasileiro e familiar da esperança de libertação.

    Fonte:


    http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=21943  



    O Horto Florestal e os Terroristas
    Cristiano Kern Hickel


    O Horto Florestal Barba Negra, em Barra do Ribeiro, Rio Grande do Sul, amanheceu sendo furiosamente destruído neste 8 de março. Terroristas da mais perigosa estirpe, ao que parece. Daqueles sem escrúpulos. Gente que ao longo das últimas décadas vem aniquilando o modo de vida de comunidades locais pelo Brasil, quilombolas, Tupinikins,Pataxós, Guaranis, pescadores e campesinas, sem o menor remorso. Invadem terras, causando êxodo rural e a dispersão de muitas comunidades. Rios degradados. O uso intensivo de agrotóxicos contamina a água, o solo e as pessoas. Mentem deslavadamente. definitivamente, são perigosos.

    Como se fosse pouco, ainda recebem gordos incentivos do Governo, desde a época da ditadura militar (quando foram favorecidos para ocupação de terras indígenas quilombolas).

    Em dezembro de 2005, foi aprovado empréstimo de R$297.209.000,00 pelo BNDES à Aracruz que, entre outros, servirá para modernização da sua fábrica de celulose no Rio Grande do Sul. O prazo de carência desses créditos do BNDES é de 21 meses, só a partir daí começam os pagamentos do empréstimo: os prazos das amortizações chegam a 84 meses.Tudo isso a juros de até incríveis 2% ao ano!

    O BNDES também emprestou US$ 318 milhões para a construção da fábrica da Veracel (empresa da Aracruz Celulose e Stora Enso, sueco-filandesa - são concorrentes mas ao mesmo tempo sócias, alguém entende?), na Bahia.

    Além do Governo Federal, o Governo do Rio Grande do Sul já financiou mais de R$ 29 milhões, desde 2004, no agronegócio "florestal". Com tantos aliados assim, fica fácil atingir o lucro líquido de R$ 1,2 bilhão (como em 2005).

    Vejamos, agora, o contraste com outras notícias dessa semana: O endividamento e a descapitalização dos pequenos produtores rurais provocarão, pelo menos, oito atos públicos até o final do mês (março) no Rio Grande do Sul.

    Um levantamento feito pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag) aponta que mais de 100 mil agricultores não terão condições de pagar os financiamentos, o equivalente a 25% do segmento familiar no Estado. Atualmente, as taxas de juros praticadas no Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf) variam até 8,75% ao ano.

    Ainda falando em números, em 2001 a agricultura familiar recebeu de investimentos públicos R$ 600 milhões para todo país, enquanto a Aracruz recebeu das mãos do BNDES R$ 666 milhões para sua terceira fábrica.

    Talvez não esteja explícito a importância da agricultura familiar, propositalmente, afinal, não é do interesse do modelo de desenvolvimento excludente que está por detrás desta atividade.

    Mesmo assim, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, falou que a consciência democrática dos brasileiros foi ferida, e que "...episódios deste tipo em nada contribuem para um debate sério e conseqüente a respeito do modelo de desenvolvimento rural que queremos para o nosso país.".

    O que é democracia, afinal? Esses movimentos sociais sempre estiveram batendo na porta do Governo para conversar, sempre tentaram buscar acordos com as empresas. O que será que houve? Sejam ingênuos, mas não sejam marionetes.

    O Governo do Estado do Rio Grande do Sul foi radical: suspendeu toda e qualquer relação institucional com a Via Campesina e com as instituições a ela vinculadas (como se tivesse tido alguma relação decente).

    A Aracruz Celulose, e todas outras do setor, vêm sofrendo forte pressão popular, pelas razões descritas aqui e muitas outras, há muito tempo. Por isso estava precisando de um "descuido", como esse da Via Campesina, para desmantelar seus oponentes frente à opinião pública. Apoiada no sensacionalismo "a la reality show" da mídia, mais diversas notas pagas de capa e meia página de jornal, ela coseguiu.

    Pobre vítima.

    Toda essa briga é pela produção de papel para exportação (e não esqueçam que não é apenas a Aracruz nesse jogo), principalmente para os EUA, que consomem 9 vezes mais papel que os brasileiros. Então, perguntamos, porque não produzem direto lá, mesmo? Será pela mão-de-obra barata? Isenção de impostos e incentivos do Governo? Os passivos ambientais que ficarão para as próximas gerações? Ou será que é porque aqui o povo não se importa? Até pagamos por isso, não?

    Este fato - que de isolado não tem nada - trouxe à tona, também, uma questão interessante: os políticos desse país nunca estiveram tão afinados, em esfera municipal, estadual e federal, todos empenhados em construir um país para inglês ver.

    Será que chegaram à conclusão de que a solução é comer papel?

    Cristiano Kern Hickel
    Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais
    www.inga.org.br  
    (artigo enviado por Isnard Carvalho Campos - MG)


    O caso Aracruz que não passou na TV. Uma entrevista exclusiva UNISINOS  com o engenheiro ambiental Cristiano Kern Hickel

    "Temos visto nos jornais que a celulose é uma fonte de renda alternativa para o agricultor, que ela dá lucro, mas, na verdade, não é bem assim. Ela tem causado um êxodo rural violento, a expulsão familiar do campo, além de incontáveis impactos ambientais. Isso não vem à tona. Todos ficam com a propaganda que a indústria de celulose quer vender. A ausência dessas informações deixa de lado a razão dos movimentos sociais. A análise é do engenheiro ambiental Cristiano Kern Hickel, membro do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais em entrevista exclusiva concedida às notícias diárias do nosso sítio. De seu autoria publicamos, ontem, neste espaço o artigo O Horto Florestal e os Terroristas.

    Eis a íntegra da entrevista:

    IHU On-Line - Como fica a imagem do MST, Via Campesina e demais movimentos sociais depois da cobertura que a grande mídia deu ao fato? Quais as conseqüências mais sérias que os movimentos sociais poderão sofrer a partir deste ato no Horto Florestal?

    Cristiano Hickel - Esses movimentos já vêm sofrendo retaliações há muito tempo. Esse ato foi só mais uma brecha para aqueles que se opõem a esses movimentos se imporem. Eles acabaram perdendo mais um pouquinho do apoio da opinião pública em função desse ato. Mas não é uma novidade que, há muito tempo, eles vêm sendo retalhados, especialmente aqui no Rio Grande do Sul, pelo latifúndio.

    IHU On-Line - Quais os principais contrastes entre o que aparece e o que não aparece nas notícias sobre o fato?

    Cristiano Hickel - O que não aparece são as realidades no caso da celulose. Há uma realidade bastante séria por detrás da propaganda que é feita. Temos visto nos jornais que a celulose é uma fonte de renda alternativa para o agricultor, que ela dá lucro, mas, na verdade, não é bem assim. Ela tem causado um êxodo rural violento, a expulsão familiar do campo, além de incontáveis impactos ambientais. Isso não vem à tona. Todos ficam com a propaganda que a indústria de celulose quer vender. A ausência dessas informações deixa de lado a razão dos movimentos sociais.

    IHU On-Line - Qual a real importância que tem hoje a agricultura familiar para o País?

    Cristiano Hickel - A primeira importância dela é fixar o homem ao campo. É através dela que se podem desenvolver as técnicas da agroecologia, a agricultura ecológica, como agrotóxicos de forma sustentável e a exploração da terra de forma sustentável. Isso está sendo substituído pela mecanização, pela agricultura em larga escala, onde só sobrevivem os grandes. A agricultura familiar é a que mais emprega no campo. O governo federal até tem programas de fomento para a agricultura familiar, mas eles são tão insipientes que não vejo, de fato, o desenvolvimento, só o contrário, o sucateamento, apesar de o governo federal defender isso.

    IHU On-Line - Muitos condenam o ato das mulheres da Via Campesina, afirmando que não é dessa forma que se luta pelos direitos. Qual seria a alternativa ou uma outra forma que elas teriam de exercer a democracia?

    Cristiano Hickel - Aí entra uma questão complexa. Observo que essas pessoas estão na luta há anos, pedindo socorro do governo e das empresas para negociar seus direitos. Esse ato do dia 8 de março demonstra o limite da situação. Elas foram até onde conseguiram de forma pacífica. Como foram excluídas, ignoradas, acabaram chegando a esse ponto da violência. Essa é uma questão interessante para o debate. Podemos concluir que esse foi apenas o primeiro ato de muitos que estão por vir. As pessoas encontraram essa forma de se impor e aparecer na mídia. Isso demonstra como é inócuo tentar conversar com essas empresas, pois elas se impõem de cima para baixo. Até pode ser que existam outras diversas formas de agir, depende da criatividade de ação dos movimentos. Mas talvez não teriam a repercussão que está tendo. Eu não condeno totalmente esse ato, apesar de descartar ações de violência. Acontece que enxergo essa situação limite. Entendo porque aquilo aconteceu.

    IHU On-Line - O que fazer para reverter a imagem de vítima atribuída à Aracruz Celulose?

    Cristiano Hickel - Trazer esse debate à tona com as informações que não chegam à população é uma forma. Tivemos uma noticia recente de que o Ministério Público instaurou inquérito contra as três grandes indústrias de celulose que estão se instalando aqui, a Votorantin, a Aracruz e a Stora Enso. Isso porque elas estão plantando sem o licenciamento ambiental. Quem fomentou essa ação foram as Ongs ambientalistas. O Ministério, então, tomou a frente. Essa informação deveria chegar às pessoas. Mas disso ninguém fica sabendo.

    IHU On-Line - Em seu artigo, você afirma que "os políticos desse país nunca estiveram tão afinados, em esfera municipal, estadual e federal, todos empenhados em construir um país para inglês ver". O que esperar da política a partir desse fato?

    Cristiano Hickel - Coloquei isso de forma irônica, para mostrar as conseqüências que estamos sofrendo. Temos aqui no Estado um governo de direita que está "avacalhando" com a questão ambiental. Nosso governo federal é de esquerda e está fazendo a mesma coisa, nos deixando loucos com isso. Em primeiro lugar, acho que o governo estadual deveria rever a postura de romper com a Via Campesina e os movimentos ligados a ela. Isso é errado, radical demais, não é assim que se resolve a questão. Os políticos deveriam rever a questão do desenvolvimento sustentável, que virou um discurso, perdeu completamente o sentido. Eles agem no sentido do desenvolvimento econômico, quando deveriam agir no sentido do desenvolvimento sustentável. Porém, na atual conjuntura, é bastante utópico pensar nisso. Estou completamente desiludido com os políticos e os profissionais da política. Acho que a sociedade deveria se organizar melhor para mudar essa situação. Os políticos estão a mando dos conchavos das grandes corporações do poder econômico.

    IHU On-Line - Quais as principais atividades do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais?

    Cristiano Hickel - O INGA desenvolve projetos de pesquisa e cursos na área ambiental, além de estar atuando na questão das hidrelétricas. Ele foi um dos iniciadores do Fórum sobre o Impacto das Hidrelétricas, realizado em setembro do ano passado. Entre os cursos oferecidos estão o de botânica, o de aproveitamento da energia solar, e do uso adequado da água.


    Fonte: http://www.unisinos.br/ihu



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