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    Cinzeiros esquecidos, garçonetes cansadas e quatro "Kerouacs" na praça de alimentação - Gustavo Rios

    Cinzeiros esquecidos, garçonetes cansadas e quatro "Kerouacs" na praça de alimentação

    Por Gustavo Rios

    Foi ontem. Meu velho tinha o braço repousado no batente da janela. Seu olhar tava voltado pra mim que, até então, mantinha o cigarro aceso entre os dedos e lia algum trecho bacana de um dos meus tantos livros. Era dia de arrumação. Depois de duas mudanças onde tudo fora transportado de um lugar pro outro – caminhões de mudança não sacam o que é ter uma estante de livros -, eu tentava descobrir se algo havia se perdido.


    Tava tudo lá. Minha tentativa de arrumar tudo numa seqüência própria.


    E ele dava uma risadinha sarcástica. Eu, aqui dos meus trinta e quatro, já entendia aquilo. Algo como “esse sacana não muda, apesar da idade e dos grisalhos proeminentes na cabeça”. Era isso.


    A diferença era que ele tava equivocado. Não era somente o mesmo filho que andava distraído com trechos do Miller e do Ginsberg. Era um cara que, mesmo com os tais grisalhos na cabeça que fervia – com aquele mesmo silêncio que tanto me acostumei -, pensava em outras ondas.


    No passado nem tão distante assim. Apesar dos trinta e quatro feitos recentemente. Eu pensava na nobre arte de se andar em bando. Com amigos e afins. Com irmãos que superam esse lance do consangüíneo e dos sobrenomes gravados nos velhos livros embolorados em cartórios distantes, sombrios e negligentes. Eu voltei a andar em bando. E isso tá sendo motivo de desavisado orgulho.


    Já tive alguns outros. Amigos que, como eu, se aliavam pra amenizar a dificuldade de encarar a vida - um bando de meninos sem perspectivas aprazíveis. Assim, em bloco, numa formação espartana e num uníssono nada canhestro, as coisas ficavam mais fáceis. A gente partilhava quase tudo. Das biritas às confissões que surgiam geralmente nas madrugadas de sábado, quando o tédio se abatia em nosso bairro e éramos uns garotos barulhentos, ruidosos e relativamente selvagens. Bebendo, fumando o que viesse e desrespeitando a calmaria que estagnava sobre os telhados dos prédios. Ainda assim, mantínhamos nossa reserva de segredos e divergências. Então, entre tapas nas costas, brincadeiras escrotas e falsos insultos, encerrávamos nosso fim de semana – porque o domingo eram os almoços em família e a ressaca que nos fazia acordar às três da tarde.


    Por vários motivos esses meus bandos se dispersavam. Filhos vinham no encalço de um amadurecimento não desejado; namoradas entortavam a cara quando a garrafa de vinho Dom Bosco chegava à metade; o desejo de fuga superava as noites descompromissadas, e uns sumiam pra outras cidades; o trabalho consumia nosso corpo, nos forçando a dormir mais cedo, a evitar a birita e as especulações iluminadas - junto com outras nem tanto, mas gigantes em sua graça e altivez.


    Eles não gostavam de literatura. Assim como eu gostava. Não era raro eu chegar no cruzamento da rua quatro, onde um poste iluminava um pedaço de nossos corações ferozes e os carros ficavam estacionados sob o brilho nada fulgaz da lua, doido pra falar do Kerouac. Era comum eu ter de me calar e tentar entrar na conversa comum – e muitas vezes também genial.


    Faz parte de minha formação esse lance da sacanagem, da franca putaria; das piadas infames e da alegria compartilhada sem a intromissão de ídolos estradeiros e alucinados; eternos em suas existências inigualáveis. A gente falava de trampo e das garotas que queríamos comer. Dos desejos tão sinceros quanto deixar o cabelo crescer e andar com a camisa aberta, deixando o vento soprar suas dúvidas e respostas – assim como o vento do Bob Dylan.


    Hoje, alguns se batem comigo na rua. Estão gordos, cansados. Ou conformados e felizes – pra graça e sorte deles e minha, que prefiro perder alguns dedos das mãos que vê-los verdadeiramente fodidos. Outros continuam selvagens e tropeçam bravamente numa vida sem escolhas.


    Velhos heróis meus. Particulares e intransferíveis.


    Por conta dessas coisas achava que tava ficando meio velho pra esse lance de se andar em bando. Isso, aliado ao jeitão de herói solitário – uma inevitável síndrome, querida e bastante promissora; cultivada pra resguardo da alma -, tavam me fazendo esquecer dessa história de compartilhar.


    Mas eis que eu voltei a dividir. Minhas coisas. Cervejas, piadas infames, livros, conversas elucidativas; a vontade de arrancar a vida na marra de sua sonolência forçada e cinzenta. Com os caras. Eles. Acho que era isso que meu velho não compreendia. Quando olhava pra mim, silencioso, austero e meio triste.


    Enquanto eu também tinha um risinho sacana na cara. Lembrando dos tempos que passaram. Na mesma rua e nos amigos. Ria e pensava na absoluta certeza de que posso compartilhar com alguns sujeitos as minhas ondas. Ainda que seja num fim de tarde de quarta. Prenúncio de carnaval, onde os motoristas desrespeitam as leis e normas; as pessoas sorriem em seus quartos esperando felicidade nas ruas; oito cervejas long-neck pro final do mês. Quatro sujeitos conversando sobre vida na mesa de uma praça de alimentação vazia.


     




    Gustavo Rios mora em


    Salvador, Bahia. Nascido em 1974, baiano, é autor do livro de contos O Amor é Uma Coisa Feia (Editora 7 Letras, Coleção Rocinante)

    Blog do autor: http://cozinhadocao.blogspot.com/


     


    Revista O Lobo, 4.2.08



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